INDICAÇÕES: sites e blogs.

             Na barra lateral, direita, deste blog iremos acrescentar periodicamente sites e blogs afins ao trabalho de formação de professores em cinema e educação. 


http://www.cinead.org/

http://portacurtas.org.br/

http://cine-africa.blogspot.com.br/

http://366filmesdeaz.blogspot.com.br/


5° ENCONTRO - TIMBUKTU

TRAILER







SINOPSE



Direção: Abderrahmane Sissako. 2014. 1:37. Mauritânia – França.
Julho de 2012, em uma pequena cidade no norte de Mali, controlada por extremistas religiosos. Uma família tem sua rotina alterada quando um pescador mata uma de suas vacas. Ao tirar satisfação sobre o ocorrido, Kidane (Ibrahim Ahmed dit Pino) acaba matando o tal pescador. Tal situação o coloca no alvo da facção religiosa, já que cometera um crime imperdoável.


CRÍTICA


TIMBUKTU.


por Lucas Salgado

2015 começou de uma forma que ninguém esperava, ou gostaria. Com o atentado terrorista na França, que resultou na morte de inúmeros jornalistas e cartunistas da Charlie Hebdo, o mundo mais uma vez se viu obrigado a confrontar as mazelas da intolerância e do extremismo religioso. Não fosse o bastante, o caso resultou em inúmeras outras situações de violência em todo mundo. Ao mesmo tempo, grupo jihadista Estado Islâmico só ganha força e não demonstra qualquer pudor ao divulgar amplamente suas execuções pela internet. É neste contexto que Timbuktu chega aos cinemas brasileiros. Por essas e outras, trata-se de um filme importantíssimo.
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o longa da Mauritânia retrata o dia a dia de uma pequena cidade histórica no norte de Mali, que passa a ser controlada por extremistas religiosos. De um dia para o outro, os moradores são obrigados a conviver com restrições às suas liberdades. Há um toque de recolher, a proibição de confraternizações mesmo em casas e homens que passam a agir como juiz e executor. Nos vemos diante de um lugar que não tolera mais a alegria ou o amor.
Trata-se de uma obra atual, envolvente e desoladora em alguns momentos. Também possibilita a reflexão ao tentar mostrar que mesmo pessoas em tese pacíficas são afetadas por certo radicalismo ao serem mantidas em uma sociedade radical e excessiva. Isso é visto quando um personagem importante procura fazer justiça pelas próprias mãos ao se irritar com um vizinho.
O principal mérito da produção está em retratar uma situação duríssima, mas sem abrir mão da poesia. Poesia esta que não é só visual, através de uma fotografia fabulosa e cenários atraentes, mas também através da ação de personagens. O longa tem pelo menos dois momentos belíssimos. No primeiro, vemos crianças jogando futebol, mas sem bola. Afinal, é proibido jogar futebol. No segundo, temos um grupo de amigos que se reúnem em uma casa para cantar e tocar música. A beleza da canção, por si só, já nos faz não entender o motivo pelo qual pessoas não podem simplesmente cantar em suas casas.
Timbuktu conta com uma bela direção de Abderrahmane Sissako e com atuações marcantes de Ibrahim Ahmed dit Pino, Abel Jafri, Hichem Yacoubi, Toulou Kiki e Kettly Noël. Um filme importante que chega em um momento importante de nossa sociedade. Para ver e refletir. Diante de tanta beleza no mundo, vale mesmo a pena tanta violência e tanto ódio em nome de Deus?

5° ENCONTRO - GRIGRIS

TRAILER








SINOPSE



Direção: Mahamet-Saleh Haroun. 2013. Chade-França.
Apesar de uma perna paralisada, Grigris sonha em viver da dança - um grande desafio. Seus sonhos são frustrados quando seu tio adoece. Para salvá-lo, Grigris resolve trabalhar para traficantes.

CRÍTICA



GRIGRIS.


Por Fabricio Duque

“Grigris”, de Mahamat-Saleh Haroun. É a zebra da competição do Festival de Cannes 2013. Não é um filme ruim em hipótese nenhuma, mas destoa consideravelmente das outras produções. Dizem aqui em Cannes que é um filme de política internacional. Os atores são excelentes dentro de uma estrutura fílmica bem feita, mas se torna comum, ingênuo e “apenas” um trabalho apaixonado do realizador. Há estímulo referencial a outro filme  de estética semelhante, “Rebelle”, que foi indicado ao Oscar este ano.

O Diretor Mahamat-Saleh Haroun nasceu em Chade, na África Central, mas vive na França desde 1982. Estudou no Conservatório Livre do Cinema Francês, em Paris. Em 1994, estreou na direção com o curta-metragem Maral Tanié. Cinco anos mais tarde, roteirizou e dirigiu Bye Bye Africa, seu primeiro longa. Exibiu seu filme seguinte, Abouna (2002), na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. Com Temporada de Seca (2006) recebeu cinco prêmios no Festival de Veneza, entre eles o Prêmio Especial do Júri.  Ganhou o prêmio do Juri por “O Homem Que Grita”.

Fonte:  http://vertentesdocinema.com/2013/05/02/cannes-grigris/


                 

5° ENCONTRO - O ALUNO - UMA LIÇÃO DE VIDA

TRAILER





SINOPSE



Direção: Justin Chadwick. 2009. 1:43.  Reino Unido.

Baseado em fatos reais, o filme conta a história de Kimani Maruge (Oliver Litondo), um queniano de 84 anos que está determinado a aproveitar sua última chance de ir à escola. Desta forma, para aprender a ler e escrever, ele terá que se juntar a crianças de seis anos de idade.


CRÍTICA



UMA LIÇÃO DE VIDA.


Por Renato Hermsdorff

Em 2009, um queniano foi parar na Casa Branca. Não, não estamos falando de Barack Obama (que, claro, é americano, mas de ascendência queniana), mas de Kimani N'gan'ga Maruge, um octogenário que lutou para aprender a ler e a escrever em seu país e sua história, real, o levou a palestrar nos Estados Unidos.
 Maruge (o ótimo Oliver Litondo), que ganhou uma cinebiografia, Uma Lição de Vida (de 2009, que só agora chega ao Brasil), teve que enfrentar todo tipo de adversidade em nome da educação. Ex-combatente de um grupo de revolucionários que lutou contra os ingleses pela independência do Quênia, aos 84 anos, ele recebe uma carta da Presidência de seu país e resolve se matricular em uma escola primária com o objetivo de decifrá-la.
Rapidinho a história vira notícia e desperta a inveja da comunidade local, a ira de pais ignorantes e a ganância de burocratas que acham que Maruge está tirando um troco com a publicidade. Com um passado sofrido, ele, no entanto, tem o apoio da professora Jane Obinchu (a bela e carismática Naomie Harris, de 007 - Operação Skyfall, em uma interpretação realmente acima da média), em um cenário ainda marcado pela rivalidade entre etnias.
Certamente uma "história de cinema". O filme do diretor britânico Justin Chadwick (Mandela e A Outra), no entanto, mais parece um pedido de desculpas do colonizador, do que uma obra independente, o que enfraquece a qualidade artística deste Uma Lição de Vida.
O roteiro maniqueísta divide o Quênia entre o povo puro e alegre que não perde uma dancinha e aqueles que não perdem a oportunidade de incrementar o próprio pirão quando a farinha é pouca. E tome frases de efeito.
Tecnicamente, a produção segue a mesma linha. A trilha melosa, com músicas cantadas em algum dialeto, orienta a tônica da dramaturgia, ao passo que câmera se movimenta lentamente de baixo para cima em close no rosto dos personagens, para confirmar a dramaticidade da ação.
Com um gnu que foge do leão, o diretor optou por passar ao largo da discussão política. É perfeitamente compreensível a escolha, mas ela deixa uma pulga atrás da orelha quando o governo queniano é mostrado com um grande benfeitor (o programa de “educação para todos” foi a brecha que Maruge encontrou para se matricular na escola primária) e acessível (nosso herói chega a invadir a sala do político, por quem é imediatamente recebido).
Bem produzido, com um roteiro redondo, apesar de tudo, apoiado em belas imagens e baseado em uma história real de adversidade e redenção, o filme não chega a ofender. Pelo contrário, algumas cenas realmente emocionam. Mas, no saldo final, fica a sensação de que é para inglês ver.

Fonte:  http://www.adorocinema.com/filmes/filme-176055/criticas-adorocinema/


                            

3° ENCONTRO - ACABOU A PAZ! ISTO AQUI VAI VIRAR O CHILE (Trailer, Sinopse e Crítica)


Direção: Carlos Pronzato. 2016. 1:00. Brasil.  


SINOPSE


A saga dos estudantes secundaristas de São Paulo por uma educação de qualidade. O levante do segundo semestre de 2015 contra o fechamento de 94 escolas, culminou na ocupação de mais de 200 que seriam afetadas pelas ações de precarização do ensino público engendradas pelo Governo de Geraldo Alckmin que vem perdendo apoio dia a após dia. A coragem, a autonomia, a horizontalidade, a sororidade e solidariedade demonstrado pelos secundaristas e o apoio popular presentes! Os gritos seguem ecoando na rua talvez anunciando uma profecia já concretizada: Acabou a paz, isto aqui vai virar o Chile!

TRAILER 






CRÍTICA


Por Cidinha Silva


  “Razões nós temos. Nós não somos rebeldes sem causa!” Essa é uma das reflexões feitas pelos jovens secundaristas que ocuparam as escolas públicas estaduais da cidade de São Paulo, no final de 2015, em resistência à autoritária reorganização escolar imposta por Geraldo Alckmin.
Dezenas de moças e rapazes nas escolas e centenas deles nas ruas enfrentaram com galhardia uma secretaria de educação inflexível e uma força policial violenta durante 26 dias heroicos, iniciados em 06 de outubro de 2015.
O processo foi registrado pelo cineasta argentino Carlos Pronzato e resultou no documentário “Acabou a paz, isso aqui vai virar o Chile”,
Durante uma hora de duração do filme o expectador acompanha cenas do movimento estudantil de resistência e desobediência civil que tomou conta de São Paulo, conquistou o Brasil e também a simpatia internacional. Além de influenciar movimentos similares em Goiânia e no Rio de Janeiro.
Tem acesso também às vozes de sociólogos, educadores, analistas políticos, sindicalistas, representantes de associações estudantis, ativistas políticos, jornalistas independentes que analisam o movimento, seus vínculos com as manifestações de junho 2013 e  desdobramentos.
Mas ouve, principalmente, a voz dos estudantes que discutem a precariedade do sistema de educação paulista expressa na demissão de professores, superlotação de salas de aula, prédios abandonados. Livros e alimentos trancafiados e em processo de deterioração dentro dos prédios escolares.
Pronzato, realizador de “A rebelião dos Pinguins, estudantes chilenos contra o sistema”, de 2007, fez de “Acabou a paz, isso aqui vai virar o Chile”, um registro do protagonismo juvenil como personagem central. O movimento dos estudantes é mais destacado do que os indivíduos, as lideranças.
Esse movimento buscou o governo estadual na tentativa de dialogar antes da ocupação. Enviou abaixo-assinados, conseguiu apoio de vereadores, tentou agendar reuniões, mas nada deu certo. Não foi ouvido. Não foi considerado.
Restou apenas a alternativa de ocupar as escolas e as ruas. O documentário nos mostra a organização política horizontal construída pelos estudantes em cada escola ocupada e a surpresa causada ao governo Alckmin e à polícia militar que os reprimiu de maneira covarde e violenta.
Mostra também o processo de politização de muitos jovens que, antes do movimento de resistência à reorganização das escolas eram alheios à política, como se nota em alguns depoimentos. E, ao construí-lo alimentaram o mundo adulto com mais esperança no futuro.

3° ENCONTRO - ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? (Trailer, Sinopse e Crítica)



Direção: Abbas Kiarostami. 1987. 1:23. Irã

SINOPSE


O garoto Ahmad, ao fazer seu dever de casa, percebe que pegou o caderno de seu amigo por engano. Sabendo que o professor exige que as tarefas sejam feitas no caderno, escapa das vistas de sua mãe e parte em busca do colega. Ele vai até uma vila nos arredores com o intuito de encontrá-lo para devolver o caderno.


TRAILER





CRÍTICA 

Por Guilherme Bakunin 


 
O tempo, a jornada e a infância num dos mais significativos de Abbas Kiarostami.
Kiarostami despontou para o mundo depois de Close-Up, mas Onde Fica a Casa do Meu Amigo? é recorrentemente citado como a sua primeira obra de grande valor, onde sua estética e seu estilo apresentavam-se maduros, afiados, exibindo as marcas inconfundíveis do diretor iraniano. A sinopse é sucinta, absurda de tão simplória: Ahmad leva por engano pra sua casa o caderno do seu colega e pretende devolver, embora não saiba exatamente onde ele mora.
O filme percorre, de uma maneira bem menos evidente que seu sucessor (Close-Up), o terreno da ficção-não-ficção, tão querido por Kiarostami. Embora os personagens sejam filmados de uma certa distância, com uma câmera estática, com certeza há uma impressão de cinema verité presente, mediando a trajetória da narrativa.
Parte da impressão acontece provavelmente pelo uso do que supomos serem atores amadores para interpretar os personagens do filme – não que as atuações sejam claramente ruins, pelo contrário, as pessoas expressam um certo peso no olhar, algo perdido entre a rigidez e a tristeza, que parece muito bom para ser atuado. A geografia específica dos dois vilarejos que servem de ambientação da história também contribuem para a impressão de verdade. Poshteh, o conglomerado vizinho, e Koker a vila onde mora Ahmad.
As duas cidades, mas mais especialmente Poshteh, são retratadas de maneira interessada, próxima, atentando para as texturas que fazem parte dos lugares: o chão de terra, as paredes mal rebocadas, as portas e janelas simples e de maneira, a estrutura em morros, etc. Mesmo que enquanto pano de fundo, o olhar do diretor compõe uma lógica de observação que contempla o cenário como parte primordial da estrutura dimensional da imagem. O cenário também faz parte do tema.
Porém, existem duas questões caras ao filme que mexem comigo de um jeito mais particular. A primeira é o tempo. O filme possui pouco mais de uma hora e quinze minutos, mas realmente quase nada acontece, porque Kiarostami investe grande parte de sua metragem em acompanhar o garoto percorrendo os locais, manifestando uma consideração temática constante em seu cinema: a jornada. Não é nem pelo fato de que Ahmed não consegue na real chegar ao seu destino (a casa do amigo), mas é que realmente os espaços pelos quais ele anda é que interessam, enquanto conteúdo narrativo, para o diretor.
No cinema, a jornada é tão importante quanto o tempo dedicado a mesma. Ao fazer sua câmera seguir pacientemente o menino de uma cidade a outra, na subida de um morro, na descida de um morro, o filme ressalta claramente o valor e significado que deseja atribuir a ela. Em oposição a filmes repletos de transições e cortes temporais que comprimem a jornada, Kiarostami constrói no seu uma relação entre espaço e tempo, tornando-os a história em si, acima de qualquer outra coisa. Poder sair da correria de um filme rápido e investir-se emocionalmente em um filme tão delicado e contemplativo é realmente reconfortante e emancipador.
A outra questão é a infância. Ahmed e as outras crianças do filme parecem ainda descolados da sociedade específica daqueles locais tal como ela está formatada. Isto é, eles ainda exercem certas liberdades individuais por serem crianças, embora precisem cumprir com as tarefas que lhes são entregues. O filme é bastante contemplativo, mas é interessante como ele, à sua maneira, desenvolve aquilo que Hitchcock ou Tarantino descrevem como “carrossel de emoções”. A terceira cena do filme, por exemplo, dura quase doze minutos e é basicamente Ahmed tentando convencer a ríspida mãe a deixá-lo ir até o outro vilarejo para entregar o caderno do colega. É angustiante e sufocante, emoções bem próximas do que o personagem deve ter sentido naquele momento.
Ao mesmo tempo, revela como os adultos do filme exibem comportamento autoritário sobre as crianças, como se elas fossem mudas e invisíveis. Intransigentes, os adultos não ouvem as crianças e esse é, acima de todos os outros, o principal inimigo na jornada particular de Ahmed. Por outro lado, os colegas do menino parecem mais dispostos a ajudá-lo, sendo solícitos e bem intencionados.
Como exceção aos adultos rígidos, há um senhor que desempenha o esforço descomunal de sair de sua casa e descer para depois subir um conjunto de morros e escadas para guiar Ahmed até a casa do seu amigo. O senhor é bastante velho e anda bastante devagar, o que sinceramente irrita o menino apressado. Ele oferece uma flor ao garoto, e pede para que ele a guarde dentro do caderno. Ao final do filme, com espectador ciente da entrega de Ahmed em ajudar o amigo, um plano detalhe revela a flor esquecida dentro das páginas amassadas do caderno, denotando todo um simbolismo dessa jornada, dessa compaixão, dessa ternura. A mim, esse plano detalhe simplório teve a reverberação de uma bomba – algo completamente bom e arrebatador o bastante para eu simplesmente não aguentar. Kiarostami encerra o seu filme com uma imagem que o representa completa e inequivocamente. Coisa de gênio.