Direção:
Abbas Kiarostami.
1987. 1:23. Irã
SINOPSE
O
garoto Ahmad, ao fazer seu dever de casa, percebe que pegou o caderno de seu
amigo por engano. Sabendo que o professor exige que as tarefas sejam feitas no
caderno, escapa das vistas de sua mãe e parte em busca do colega. Ele vai até
uma vila nos arredores com o intuito de encontrá-lo para devolver o caderno.
TRAILER
CRÍTICA
Por Guilherme Bakunin
O
tempo, a jornada e a infância num dos mais significativos de Abbas Kiarostami.
Kiarostami
despontou para o mundo depois de Close-Up, mas Onde Fica a Casa do Meu Amigo? é
recorrentemente citado como a sua primeira obra de grande valor, onde sua
estética e seu estilo apresentavam-se maduros, afiados, exibindo as marcas
inconfundíveis do diretor iraniano. A sinopse é sucinta, absurda de tão
simplória: Ahmad leva por engano pra sua casa o caderno do seu colega e
pretende devolver, embora não saiba exatamente onde ele mora.
O
filme percorre, de uma maneira bem menos evidente que seu sucessor (Close-Up),
o terreno da ficção-não-ficção, tão querido por Kiarostami. Embora os
personagens sejam filmados de uma certa distância, com uma câmera estática, com
certeza há uma impressão de cinema verité presente, mediando a trajetória da
narrativa.
Parte
da impressão acontece provavelmente pelo uso do que supomos serem atores
amadores para interpretar os personagens do filme – não que as atuações sejam
claramente ruins, pelo contrário, as pessoas expressam um certo peso no olhar,
algo perdido entre a rigidez e a tristeza, que parece muito bom para ser
atuado. A geografia específica dos dois vilarejos que servem de ambientação da
história também contribuem para a impressão de verdade. Poshteh, o conglomerado
vizinho, e Koker a vila onde mora Ahmad.
As
duas cidades, mas mais especialmente Poshteh, são retratadas de maneira
interessada, próxima, atentando para as texturas que fazem parte dos lugares: o
chão de terra, as paredes mal rebocadas, as portas e janelas simples e de
maneira, a estrutura em morros, etc. Mesmo que enquanto pano de fundo, o olhar
do diretor compõe uma lógica de observação que contempla o cenário como parte
primordial da estrutura dimensional da imagem. O cenário também faz parte do
tema.
Porém,
existem duas questões caras ao filme que mexem comigo de um jeito mais
particular. A primeira é o tempo. O filme possui pouco mais de uma hora e
quinze minutos, mas realmente quase nada acontece, porque Kiarostami investe
grande parte de sua metragem em acompanhar o garoto percorrendo os locais,
manifestando uma consideração temática constante em seu cinema: a jornada. Não
é nem pelo fato de que Ahmed não consegue na real chegar ao seu destino (a casa
do amigo), mas é que realmente os espaços pelos quais ele anda é que
interessam, enquanto conteúdo narrativo, para o diretor.
No
cinema, a jornada é tão importante quanto o tempo dedicado a mesma. Ao fazer
sua câmera seguir pacientemente o menino de uma cidade a outra, na subida de um
morro, na descida de um morro, o filme ressalta claramente o valor e
significado que deseja atribuir a ela. Em oposição a filmes repletos de
transições e cortes temporais que comprimem a jornada, Kiarostami constrói no
seu uma relação entre espaço e tempo, tornando-os a história em si, acima de
qualquer outra coisa. Poder sair da correria de um filme rápido e investir-se
emocionalmente em um filme tão delicado e contemplativo é realmente
reconfortante e emancipador.
A
outra questão é a infância. Ahmed e as outras crianças do filme parecem ainda
descolados da sociedade específica daqueles locais tal como ela está formatada.
Isto é, eles ainda exercem certas liberdades individuais por serem crianças,
embora precisem cumprir com as tarefas que lhes são entregues. O filme é
bastante contemplativo, mas é interessante como ele, à sua maneira, desenvolve
aquilo que Hitchcock ou Tarantino descrevem como “carrossel de emoções”. A
terceira cena do filme, por exemplo, dura quase doze minutos e é basicamente
Ahmed tentando convencer a ríspida mãe a deixá-lo ir até o outro vilarejo para
entregar o caderno do colega. É angustiante e sufocante, emoções bem próximas
do que o personagem deve ter sentido naquele momento.
Ao
mesmo tempo, revela como os adultos do filme exibem comportamento autoritário
sobre as crianças, como se elas fossem mudas e invisíveis. Intransigentes, os
adultos não ouvem as crianças e esse é, acima de todos os outros, o principal
inimigo na jornada particular de Ahmed. Por outro lado, os colegas do menino
parecem mais dispostos a ajudá-lo, sendo solícitos e bem intencionados.
Como
exceção aos adultos rígidos, há um senhor que desempenha o esforço descomunal
de sair de sua casa e descer para depois subir um conjunto de morros e escadas
para guiar Ahmed até a casa do seu amigo. O senhor é bastante velho e anda
bastante devagar, o que sinceramente irrita o menino apressado. Ele oferece uma
flor ao garoto, e pede para que ele a guarde dentro do caderno. Ao final do
filme, com espectador ciente da entrega de Ahmed em ajudar o amigo, um plano
detalhe revela a flor esquecida dentro das páginas amassadas do caderno,
denotando todo um simbolismo dessa jornada, dessa compaixão, dessa ternura. A
mim, esse plano detalhe simplório teve a reverberação de uma bomba – algo
completamente bom e arrebatador o bastante para eu simplesmente não aguentar.
Kiarostami encerra o seu filme com uma imagem que o representa completa e
inequivocamente. Coisa de gênio.