Direção: Eduardo Coutinho. 2014. 1:25. Português.
TRAILER
SINOPSE
No
longa póstumo que o diretor não teve tempo de montar, ele conversa com jovens
cariocas estudantes do ensino médio da rede pública sobre suas vidas e o que
eles esperam do futuro.
CRÍTICA
por Francisco Russo
Últimas
Conversas, o derradeiro filme dirigido por Eduardo Coutinho, tem um início
surpreendente: com o próprio Coutinho na cadeira de entrevistado. Se é verdade
que o diretor jamais omitiu a participação em seus documentários, na enorme
maioria dos casos o público tinha apenas a chance de ouvir sua voz. Mais do que
apresentar a proposta de seu novo longa-metragem, Coutinho vem a público para
revelar sua aflição com o filme ainda em formação. "É melhor não fazer do
que ter um filme de 70 minutos em que não se acredite", diz em determinado
momento. "Sempre cumpri meus contratos, mesmo que tenha assinado para
fazer um filme e entregue outro", complementa. "Me arrependo de não
ter feito com criança", lamenta.
A
proposta
de Últimas Conversas era, de certa forma, simples: falar com adolescentes,
entre 16 e 18 anos, vindos de escolas públicas do Rio de Janeiro. O objetivo não era propriamente esmiuçar a
qualidade (ou não) da educação pública - esta tarefa já foi cumprida pelo
contundente Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim -, mas saber um pouco mais
sobre quem são estes jovens prestes a adentrar na dura vida adulta. Para o
diretor, o maior problema era o comportamento típico do adolescente. "O
jovem vem moldado", reclama. O cinismo e a arrogância típica de quem acha
que sabe tudo sobre a vida era outro problema, bem como a "ausência de
memória" com tão pouca idade. Mas o entrevistador era Eduardo Coutinho. E
ele, coutiniando como sempre, consegue extrair muito mais do que se espera.
Não
foi fácil, é bem verdade. Em vários momentos é possível notar o quão incomodado
estava o diretor, pela forma como respondia às frases feitas proferidas pelos
seus jovens entrevistados, às vezes deixando-os desnorteados. Sempre sem
grosseria, como era de seu feitio. Coutinho tinha o dom da conversa e, através
dela, fazia com que as pessoas se expusessem. Às vezes em detalhes
aparentemente triviais, como a roupa vestida ou a música apreciada, mas que tão
bem explicam o comportamento de quem fala. Em outras, indo em questões
profundas que tanto revelam não apenas sobre o que é ser brasileiro mas também
sobre a natureza do ser humano. É neste ponto que o filme atinge a
grandiosidade, ao abordar de forma tão honesta e ao mesmo tempo tão crua
questões essenciais como intolerância racial, igualdade sexual e abuso de
menores. São momentos que, além de despertar questionamentos sobre que
sociedade é esta, revoltam.
Se
por
um lado Últimas Conversas possui trechos desoladores, por outro é capaz também
de promover risadas com gosto pelo inusitado provocado pelo contraste de
gerações envolvendo entrevistador e entrevistado. Esta dualidade entre o rir e
o chorar, tão comuns na vida real, é mérito não apenas da habilidade na
condução de entrevistas mas também da edição feita por Jordana Berg e João
Moreira Salles, responsáveis pelo filme após a trágica morte de Coutinho. É
possível até que o documentário fosse um pouco diferente caso Coutinho tivesse
participado da montagem, já que há uma valorização à figura do diretor de forma
que o espectador possa acompanhá-lo melhor em plena atividade. "O que vou
fazer se não filmo?", ele pergunta no decorrer do filme.
No
fim das contas, Últimas Conversas é um belíssimo filme por vários motivos: por
tão bem apresentar o estilo do diretor ao fazer documentários, pela abordagem a
questões tão delicadas e ao mesmo tempo tão necessárias, pela reflexão
provocada como poucos filmes na atualidade conseguem, pelo processo de
construção de um filme a partir das dúvidas sobre qual seria sua essência e
pela bela despedida a este que é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores
diretores da história do cinema brasileiro. Há pelo menos duas sequências que
merecem entrar em qualquer antologia que se faça com os melhores momentos de
sua carreira.


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